O MEDO DE PERDER...E A OBRIGAÇÃO DE PERDER!
(por Paulo Sérgio de Castro Oliveira, especial para a FGX em 29/08/2008)
Quem não tem medo de perder? Todos temos, uns mais, outros menos, no xadrez como na vida. Por causa dele deixamos de ver grandes confrontos, como teria sido um match revanche entre Capablanca e Alekhine, por exemplo. Ou um match tríplice, entre Fischer, Karpov e Kasparov. E vários campeões interromperam suas carreiras, que poderiam ter ido bem além, pela insuperabilidade excessiva que tinham à derrota.
Ainda hoje o medo impera, e talvez para sempre venha a imperar nos círculos enxadrísticos. Infelizmente, casos como o de Emanuel Lasker, Souza Mendes, Lourenço Cordioli, Smyslov e Korchnoi, são exceções exemplares no universo de Caissa. Atualmente, devemos ter uns 15 ou 20 bafejados pelos Deuses (além de todos os chineses!), que poderiam ser Campeões do Mundo. Mas eles nunca se enfrentarão numa final, sistema todos contra todos. Até porque a FIDE parece endossar esta impossibilidade, com o questionável modelo que implanta para o Campeonato Mundial.
Mas há uma estória incrível, que circulava secretamente até bem pouco tempo atrás, e num círculo restrito de mestres. Eu relato como estória, porém ela é baseada em fatos reais, que recentemente foram revelados (em parte) pela imprensa especializada:
Consta que o brilhante GM estoniano Paul Keres foi preso numa daquelas guerras malucas, que eles parecem gostar de ter por lá. E foi condenado à morte. Quando um enxadrista como um Fischer ou um Keres é preso, o mundo acaba sabendo. E então teriam pedido a Botvinnik que intercedesse na questão, porque ele podia 'chegar' em Stalin. O chefão russo acabou cancelando a pena e Keres foi libertado (isso tudo ficou em segredo até a morte dos 3 envolvidos na estória).
A partir de então, quando a situação se normalizou e a guerra voltou aos tabuleiros, viu-se uma situação curiosa. O brilho de Keres, que o colocava como evidente candidato a Campeão Mundial, sempre se eclipsava quando participava de eventos onde Botvinnik tambérm estava. Nos confrontos entre os dois, havia estranhos empates, em posições consideradas bem superiores para Keres. E nos torneios onde o Guru da Escola Soviética não jogava, Keres 'comia a bola', com se diz popularmente. Todos viam que Paul era o jogador mais forte do mundo, naquele momento...
Escolhi para comentar este mês uma partida impressionante desse 'campeão sem coroa', e uma recente já prometida de Mequinho. As análises da de Keres são do time do Chess Assistant. A solução do problema anterior é: 1.Rd4! seguido de 2.Dc5/Da6++. Se 1...Bf2+ 2.Re4 Be1 3.Da5 ou De3++. Mas não 1.Re4? Bd2! O problema a seguir, também de mate em 3, é de H. Rübesamen (Nachrichten, 1908).
Até a próxima!
1 def. SICILIANA var. NAJDORF
Keres P. - Panno O.
1955.
1. e4 c5 2. ¤f3 d6 3. d4 cxd4 4. ¤xd4 ¤f6 5. ¤c3 a6 6. ¥g5 e6 7. f4 £b6 8. £d2 ¤c6 Jogar a dama em b6 nesta variante e depois não tomar o peão do cavalo, não parece ser coerente.
9. O-O-O £xd4 10. £xd4 ¤xd4 11. ¦xd4 ¤d7
[11... ¥d7 12. e5ƒ]
12. ¥e2 h6 13. ¥h4 g5
[13... ¥e7 14. ¥xe7 ¢xe7 15. ¦hd1±]
14. fxg5 ¤e5 15. ¤a4! Ao invés de se preocupar com um peão, Keres descobre uma maneira de restringir a posição negra.
[15. gxh6 ¥xh6 16. ¢b1 ¥e3„]
15... ¥e7?
[15... b5 16. ¤b6 ¦b8 17. ¤xc8 ¦xc8 18. a4²/±]
16. ¤b6 ¦b8 17. ¥g3 hxg5 18. ¦hd1 O domínio posicional branco já é paupável.
18... f6 19. c4! O-O
[19... ¥d7 20. c5!]
20. ¦4d2 f5 21. c5! Keres investe em manter a situação de prisão das peças negras.
21... f4 22. cxd6 ¥xd6
[¹ 22... ¥d8 23. ¥f2 ¥xb6 24. ¥xb6 ¥d7±]
23. ¦xd6 fxg3 24. hxg3 ¦f7
[24... ¤f7 25. ¦6d2 e5 26. ¥c4±/]
25. ¢b1 ¦c7 26. ¦d8 ¢g7 27. ¦c1 ¤c6 Forçado e triste, uma a uma as peças negras vão aumentando a população carcerária.
28. e5 ¢g6 29. ¥d3 ¢f7 30. ¦h8 ¢e7 31. ¥g6 Cruel e impressionante! Uma execução de mestre, do tema 'Peça Bem Colocada', e contra um Panno então em ascensão...
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2 def. INDIA DA DAMA
Mecking, H - Timman, J
26/ 5/2008.
1. d4 ¤f6 2. c4 e6 3. ¤f3 b6 4. g3 ¥a6 5. b3 b5 6. cxb5 ¥xb5 7. ¥g2 d5 8. O-O ¤bd7 9. ¤c3 ¥a6 10. ¦e1 Até este ponto, a estatística é amplamente favorável às negras, segundo o meu banco de dados.
10... ¥b4 11. ¥d2 O-O 12. a3 ¥e7 13. b4 ¥b7 14. ¤a4 Até o lance anterior, tínhamos o registro de uma partida, que terminara em empate. Com este lance de cavalo, Mecking começa a jogar com a própria cabeça, num tipo de posição pré-final que é o seu forte.
14... ¤e4 15. ¤c5 ¤dxc5 16. bxc5 ¥f6 17. ¥e3 ¥c6 18. £c2 ¦b8 19. ¦ab1 £e7 20. ¦xb8 ¦xb8 21. ¦b1 £e8 22. ¤e5! Este lance praticamente obriga a troca, o que passa a ameaçar o cavalo negro.
22... ¥xe5 23. dxe5 h6 24. f3 ¦xb1 25. £xb1 ¤c3 O cavalo tinha um dilema difícil, onde jogaria menos?
26. £d3 ¤a4 27. £b3 ¥b5 28. ¥f1 a5 29. ¥d4 Pronto! O bispo aprisionou o cavalo, numa posição clássica de finais.
29... £c6 30. e3 ¥xf1 31. £b8!! A manobra de recaptura de Henrique é genial.
31... ¢h7 32. £b1 ¢g8 33. £b8 ¢h7 34. £b1 ¢g8 35. £xf1! £b7 36. £d3! Isto se chama 'Dominação'. O branco controla todas as casas por onde o negro poderia penetrar. Agora virá a técnica de aproveitamento desta vantagem.
36... g6 37. g4 ¢f8 38. h4 c6 39. h5 £b5 40. £xb5 cxb5 41. c6 Eu me arriscaria a dizer que Mecking viu esta posição, lá pelo seu lance 22. Se o rei tenta barrar o peão de c, segue 42.g5! Uma execução impecável do nosso GM mais forte.
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